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A professora emérita da Universidade Federal da Bahia, Josicélia Dumet Fernandes recebeu, no último dia 1º de julho de 2026, o Prêmio Anísio Teixeira, concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em Brasília. Uma das mais relevantes distinções da educação e da ciência brasileiras, a honraria reconhece personalidades que contribuíram de maneira sistemática para a formação de pesquisadores, para a produção científica e para o desenvolvimento da educação no país. Com a conquista, a professora Josicélia tornou-se a primeira enfermeira e a primeira docente da UFBA agraciada com o prêmio.
A premiação celebra uma trajetória acadêmica construída durante mais de seis décadas em torno do ensino, da pesquisa, da formação profissional e da defesa da qualidade da educação em enfermagem. Aos 82 anos, mesmo aposentada, a pesquisadora permanece vinculada às atividades científicas, à orientação acadêmica e aos grupos de pesquisa da Escola de Enfermagem da UFBA, preservando uma atuação que atravessa diferentes gerações de estudantes, docentes, enfermeiros e pesquisadores.
Diante da emoção e honra despertadas pela conquista, Josicélia manifesta, também, “o sentimento de ampliação de sua responsabilidade frente à comunidade acadêmica”. Para ela, “o prêmio ultrapassa o significado de uma homenagem individual, pois representa o reconhecimento de uma vida dedicada à educação, à ciência e à construção de conhecimentos voltados à melhoria da atenção à saúde da população”.
“Ser agraciada com o Prêmio Anísio Teixeira representa, para mim, a validação do impacto da minha atuação profissional”, declarou a professora. Em sua avaliação, a distinção reconhece sua contribuição científica por meio das pesquisas, publicações, atividades de ensino na graduação e na pós-graduação e formação de profissionais comprometidos com a excelência do cuidado em saúde. O prêmio também “reforça o compromisso de continuar contribuindo para o fortalecimento da educação e da saúde e para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, disse ela.
Trajetória iniciada ainda na graduação

A atuação de Josicélia Dumet Fernandes na educação em enfermagem começou quando ela ainda era estudante da Escola de Enfermagem da UFBA. Em 1964, filiou-se à Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) e passou a participar, por meio da Diretoria de Educação da entidade, de discussões e estratégias relacionadas à construção de currículos capazes de garantir a qualidade da formação profissional.
Depois de graduada, iniciou sua carreira como enfermeira assistencial e posteriormente, ingressou por concurso público na Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia, instituição na qual consolidou sua carreira acadêmica, ocupou funções administrativas e alcançou o título de professora titular e, mais tarde, de professora emérita. Na UFBA, exerceu os cargos de diretora da Escola de Enfermagem e coordenadora do ensino de pós-graduação.
A pesquisadora é doutora em enfermagem, mestra em saúde coletiva, especialista em metodologia do ensino superior e bacharel em enfermagem pela UFBA. Ao longo da carreira, atuou especialmente nas áreas de educação em enfermagem, ensino de graduação e pós-graduação, enfermagem psiquiátrica e saúde mental. Também integrou conselhos editoriais de periódicos científicos nacionais e internacionais e desenvolveu atividades como consultora ad hoc do CNPq e da Capes.
Sua produção acadêmica concentrou-se, sobretudo, na formação de enfermeiros e enfermeiras, na estruturação do ensino superior, na qualificação da pós-graduação e na construção de práticas profissionais alinhadas às demandas do Sistema Único de Saúde. O trabalho desenvolvido ao longo de décadas contribuiu para formar pesquisadores, docentes e profissionais comprometidos com uma assistência qualificada, segura, humanizada e socialmente referenciada.
Contribuições para as políticas nacionais de formação em enfermagem
A trajetória de Josicélia não se restringiu à UFBA. Na Associação Brasileira de Enfermagem, integrou a Diretoria de Educação durante diferentes gestões e participou da Comissão de Ensino de Graduação. Nessas instâncias, colaborou com processos coletivos de formulação e discussão das diretrizes curriculares dos cursos de enfermagem.
Entre 2000 e 2002, a professora integrou a Comissão de Especialistas de Ensino de Enfermagem da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Nesse espaço, participou da construção das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem estabelecidas pela Resolução CNE/CES nº 3, de 2001.
Posteriormente, manteve sua participação nas discussões nacionais sobre a formação profissional, atuando na Associação Brasileira de Enfermagem e em comissões dedicadas ao aperfeiçoamento dos currículos. Um dos princípios centrais defendidos pela pesquisadora é a necessidade de preservar a formação presencial em Enfermagem, considerando que as competências relacionadas ao cuidado, à observação clínica, à comunicação e à relação entre profissionais e pacientes não podem ser integralmente construídas por meio de atividades remotas.
“Não existe cuidado sem presença”, sintetiza a professora ao abordar a defesa do ensino presencial. Em sua trajetória, ela associa a qualidade da formação à integração entre conhecimentos teóricos, experiências práticas, relações humanas e inserção dos estudantes nos serviços de saúde.
Formação de pesquisadores e fortalecimento da pós-graduação
Outro eixo fundamental da atuação de Josicélia foi a consolidação da pós-graduação em enfermagem. A professora desempenhou papel relevante no fortalecimento da formação stricto sensu, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, contribuindo para ampliar a formação de mestres e doutores e para reduzir desigualdades regionais na produção científica brasileira.
Na Capes, por duas gestões, a Comissão de Avaliação da Área de Enfermagem. Também coordenou a Comissão de Livros e a comissão responsável pelo Prêmio Capes de Tese na área. No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), atuou durante 22 anos como pesquisadora de produtividade, na categoria 1, destinada a pesquisadores com produção científica consolidada e atuação relevante na formação de recursos humanos.
A participação nesses espaços permitiu que Josicélia colaborasse com a avaliação de programas de pós-graduação, com o aperfeiçoamento das políticas de ciência e formação e com a valorização da produção científica da enfermagem. Seu trabalho ajudou a ampliar a presença da área nos sistemas nacionais de avaliação e fomento, fortalecendo o reconhecimento da enfermagem como campo produtor de conhecimento científico.
Atualmente, a professora integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Serviços de Enfermagem (GEASE) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Ética e Exercício de Enfermagem (EXERCE), ambos vinculados à Escola de Enfermagem da UFBA.
Entre os projetos desenvolvidos na Escola de Enfermagem, consta a pesquisa “Panorama da Educação em Enfermagem na Bahia”, coordenada por Josicélia com apoio do Programa Pesquisa para o SUS, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia e da Secretaria da Saúde do Estado. O estudo evidencia a articulação entre investigação científica, formação profissional e necessidades concretas do sistema público de saúde.
Apesar de a honraria ser concedida individualmente, Josicélia faz questão de atribuir a conquista a uma rede coletiva de pesquisadores, professores, estudantes, profissionais e familiares. Para ela, “nenhuma trajetória científica é construída isoladamente”.
“Eu não cheguei aqui sozinha”, afirma. A professora destaca o apoio recebido de docentes e discentes da enfermagem brasileira e, particularmente, dos integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Serviços de Saúde e da linha de pesquisa em Educação em Enfermagem da UFBA. Também reconhece a participação da família, que ofereceu suporte ao seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Relevância da conquista para a UFBA
Para a UFBA, a premiação possui um significado histórico. Josicélia é a primeira docente da instituição a receber o Prêmio Anísio Teixeira. A conquista projeta nacionalmente a produção acadêmica da UFBA e reafirma a capacidade da Universidade de formar profissionais, pesquisadores e lideranças científicas comprometidos com os desafios do país.
O reconhecimento também amplia a visibilidade da Escola de Enfermagem, fundada como a primeira instituição de formação de profissionais da enfermagem da Bahia e do Nordeste. Ao receber a premiação, Josicélia incorpora a trajetória da unidade universitária e de seu Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde ao patrimônio científico reconhecido pela Capes.
A própria pesquisadora destaca a responsabilidade decorrente de ser a primeira enfermeira e a primeira docente da UFBA contemplada. Para ela, a conquista cria o compromisso de colaborar com a preservação e a continuidade do legado de Anísio Teixeira e de sua defesa da educação como direito público, democrático e acessível a todos.
A honraria chega também em um momento de consolidação institucional do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde da UFBA, que obteve nota 6 na Avaliação Quadrienal 2021-2024 da Capes. O resultado situa o programa em um nível elevado de qualidade acadêmica e reforça o legado das pesquisadoras que contribuíram para sua construção.
Importância do prêmio para a ciência
O Prêmio Anísio Teixeira foi instituído em 1981 e tradicionalmente é concedido a cada cinco anos, por ocasião do aniversário da Capes. Na modalidade Educação Superior, a seleção considera a atuação na pós-graduação e na pesquisa, o protagonismo na formação de mestres e doutores e a influência do pesquisador ou pesquisadora no desenvolvimento da educação superior brasileira.
A distinção homenageia Anísio Spínola Teixeira, educador baiano que dirigiu a Capes entre 1951 e 1963 e se tornou uma das principais referências brasileiras na defesa de uma educação pública, gratuita, laica, democrática e de qualidade. A premiação materializa, assim, a continuidade de um projeto nacional de educação fundamentado na produção do conhecimento, na formação científica e na responsabilidade social das instituições públicas.
Ao reconhecer pesquisadores que dedicaram suas carreiras à construção da ciência e da educação, o prêmio também ajuda a preservar a memória científica brasileira. Ele transforma trajetórias individuais em referências públicas, oferecendo às novas gerações exemplos de compromisso ético, rigor intelectual e contribuição social.
No caso de Josicélia, a honraria evidencia que “a ciência não se limita aos laboratórios ou à produção de tecnologias. A organização dos cursos, a formação de profissionais, a criação de programas de pós-graduação, a elaboração de diretrizes curriculares, a orientação de estudantes e a defesa de políticas públicas também constituem atividades científicas fundamentais”.
Um marco para a enfermagem brasileira
O fato de Josicélia ser a primeira enfermeira do Brasil a receber o prêmio possui uma dimensão simbólica e científica. Historicamente associada ao cuidado assistencial, a enfermagem também é uma área de produção de conhecimentos, desenvolvimento de tecnologias, formação universitária e formulação de políticas públicas.
Ao destacar a pesquisa, a pós-graduação e a educação em enfermagem, o prêmio reafirma que a qualidade do cuidado prestado à população depende de conhecimento científico, formação rigorosa, valorização profissional e compromisso com o Sistema Único de Saúde.
O legado de Josicélia Dumet Fernandes
O legado da professora pode ser identificado na formação de profissionais e pesquisadores, na consolidação de programas de pós-graduação, na elaboração de diretrizes curriculares, no fortalecimento institucional da enfermagem e na defesa da universidade pública.
Mais do que uma sequência de cargos, títulos e publicações, sua trajetória expressa uma concepção de ciência comprometida com a sociedade. Para Josicélia, o conhecimento produzido nas universidades deve retornar à população por meio da melhoria dos processos educativos, das práticas de saúde e da formação de profissionais capazes de atuar com competência técnica, sensibilidade humana e responsabilidade social.
Sua carreira também demonstra a importância da continuidade entre gerações. Os estudantes orientados, os programas consolidados, as pesquisas desenvolvidas e as políticas educacionais construídas permanecem produzindo efeitos mesmo depois da aposentadoria formal da professora.
Ao receber o Prêmio Anísio Teixeira, Josicélia Dumet Fernandes transforma-se em uma referência ainda mais ampla para a enfermagem, para a UFBA e para a educação superior brasileira. A homenagem reconhece uma trajetória já realizada, mas também projeta para o futuro os valores que orientaram sua carreira: educação pública de qualidade, pesquisa socialmente relevante, formação científica rigorosa, trabalho coletivo e defesa da saúde como direito.
“Esse prêmio é deles. Foi por eles e com eles que eu cheguei até aqui”, afirma a professora ao compartilhar a conquista com todas as pessoas que participaram de sua caminhada. A declaração resume o sentido de um legado científico que não se encerra em uma biografia individual, mas se prolonga nas instituições, nas políticas, nas pesquisas e nas vidas transformadas pela educação.
Ao refletir sobre os momentos mais significativos de sua carreira, Josicélia ressalta a busca permanente pela articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Para a pesquisadora, os resultados científicos precisam ser transformados em experiências de aprendizagem e em respostas às demandas sociais, especialmente aquelas relacionadas aos princípios e às diretrizes do Sistema Único de Saúde.
A professora também chama a atenção para as condições dos espaços utilizados na formação dos profissionais de saúde. A precarização de hospitais, unidades de saúde e demais cenários de práticas pode comprometer tanto o processo de ensino-aprendizagem quanto a qualidade da assistência oferecida à população.
Além dos problemas estruturais, Josicélia identifica desafios associados à incorporação de ambientes virtuais de aprendizagem, recursos de inteligência artificial, metodologias ativas e ferramentas digitais. Segundo ela, essas tecnologias devem ser adotadas de maneira pedagogicamente adequada, substituindo modelos centrados apenas na transmissão de conteúdos por abordagens que estimulem participação, autonomia, pensamento crítico e capacidade de resolução de problemas.