
O livro “Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão”, do professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (IGEO/UFBA), José Antônio Lobo dos Santos, foi o vencedor do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, do eixo Ciência e Cultura, na categoria Engenharias. Publicada pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba), a obra foi anunciada como vencedora, durante cerimônia realizada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL).
Diante da conquista, o autor manifesta “sentimentos de gratidão, felicidade e dever cumprido com a responsabilidade e a qualidade acadêmica”. Para ele, “a premiação sintetiza anos de investigação, reflexão e trabalho acadêmico. O reconhecimento ganha dimensão ainda maior porque o livro resulta de uma trajetória de pesquisa iniciada há mais de uma década”.
Para a diretora da Edufba, Susane Santos Barros, a premiação evoca uma “sensação de que tudo valeu a pena e evidencia o esforço coletivo necessário para transformar uma pesquisa acadêmica em uma publicação capaz de alcançar novos públicos”. Segundo ela, “publicar a obra foi motivo de satisfação tanto pela qualidade do trabalho quanto pela relevância da temática para o catálogo da editora”.
Segundo Lobo, o livro materializa uma extensa trajetória de reflexões sobre desigualdade e violência no campo brasileiro, associadas aos debates contemporâneos sobre a transição energética e a produção de biodiesel. Ele também destaca a contribuição de diferentes pesquisadores, entre eles o professor Júlio César Suzuki, seu orientador no doutorado; Monica Varsanyi, orientadora do pós-doutorado, e os agricultores familiares do Território de Identidade de Irecê.
Na avaliação do professor, a obra colabora para que a pós-graduação e a UFBA exerçam seu papel na produção de pesquisa, na reflexão crítica e na formação para a cidadania. Para ele, “trabalhos desse tipo ajudam a construir uma ciência conectada à realidade e aos grandes problemas nacionais”.
Susane Barros associa essa contribuição à própria função da edição universitária. Para a diretora da Edufba, “publicar resultados de pesquisas financiadas com recursos públicos constitui uma forma de a universidade dialogar e prestar contas à sociedade, fazendo com que debates acadêmicos relevantes ultrapassem os limites dos campi e circulem entre públicos mais amplos”.
Esse compromisso também deverá ampliar o acesso à publicação. Segundo a diretora, “Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão” será disponibilizado em acesso aberto no Repositório Institucional da UFBA, seguindo a política de democratização do conhecimento adotada pela Edufba, que já reúne mais de mil títulos no repositório da Universidade, para download gratuito.
O Prêmio Jabuti Acadêmico

Em sua terceira edição no ano de 2026, o Prêmio Jabuti Acadêmico recebeu 2.085 inscrições e premiou obras em 27 categorias. Os autores vencedores receberam a estatueta do Jabuti Acadêmico e prêmio de R$ 5 mil, enquanto as editoras responsáveis pelas obras premiadas também foram contempladas com uma estatueta. A cerimônia de entrega dos vencedores aconteceu em 11 de agosto de 2026, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Criado em 2024 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Jabuti Acadêmico busca reconhecer a excelência da produção intelectual e ampliar a visibilidade de autores e editoras que atuam nesses segmentos. No eixo Ciência e Cultura, as obras são avaliadas considerando critérios como relevância e pertinência científicas, qualidade editorial e potencial de impacto e reconhece a excelência da produção científica, técnica, profissional e acadêmica no Brasil.
Concepção e produção da obra premiada
O processo de produção de um livro acadêmico envolve tempo e uma cadeia de profissionais, que, muitas vezes, é desconhecida ao leitor. No caso deste livro premiado, o professor Lobo lembrou que parte das pesquisas que o fundamentam se iniciaram em 2010 com o início do doutorado em Geografia Humana, realizado na Universidade de São Paulo (USP), cujos resultados constituem o eixo principal da obra.
Mas ele começou a organizar e formatar, especificamente, o texto da publicação em 2022, após o período em que atuou como pesquisador visitante na City University of New York (CUNY) e aprofundou questões que contribuíram para a versão final da publicação. Em 2024, encaminhou os originais à Edufba e, em 12 de setembro de 2025, a obra foi lançada em evento realizado no Planetário da UFBA.
A diretora da Edufba, Susane Barros, contou que o trabalho editorial de organização e formatação da obra passou por toda a cadeia de edição universitária: o conselho editorial; a secretária do conselho; o coordenador gráfico que faz a análise técnica; o coordenador editorial que designa e supervisiona a equipe de produção (revisor, normalizador e designer); a produtora gráfica; o pessoal da gráfica que executa a etapa industrial; a bibliotecária que executa o trabalho com os metadados, em bases de dados e cuida do depósito legal; o coordenador de eventos; a equipe de estoque; o vendedor e posteriormente a equipe do comercial”.
De acordo com Susane Barros, o percurso entre a submissão e a publicação foi mais demorado porque “estávamos voltando da pandemia, com muitas dificuldades de infraestrutura e de pessoal. Foi um momento de readaptação ao trabalho presencial e isso impactou fortemente o tempo de produção do livro”.
Um livro que aborda a transição energética sob a perspectiva dos camponeses
A obra “Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão” analisa, em suas 198 páginas, as contradições da produção de biodiesel e a relação entre transição energética, capital e renda camponesa no Território de Identidade de Irecê. Ao tratar de biodiesel e transição energética, o livro desloca o olhar para um aspecto central dessa cadeia produtiva: os sujeitos que produzem no campo e os mecanismos econômicos que incidem sobre sua renda.
O prefácio – assinado pelo professor do Departamento de Geografia da USP, Júlio César Suzuki – situa o trabalho no debate sobre as dimensões políticas e econômicas dos processos espaciais e destaca a análise do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Um dos pontos destacados é a análise dos efeitos da modernização agrícola e das relações de expropriação associadas à monopolização do território e à drenagem da renda da terra camponesa, com atenção ao papel desempenhado pela Petrobras na região pesquisada.

José Antonio Lobo dos Santos analisa as contradições da produção de biodiesel no Brasil e os processos de subordinação da renda da terra camponesa no Território de Identidade de Irecê, na Bahia. Conforme a obra, a produção ocorre em meio a um complexo jogo de forças envolvendo políticas públicas, capitais privados e o trabalho das famílias camponesas. O estudo também identifica formas de resistência dos agricultores, entre elas a manutenção da policultura e do plantio consorciado da mamona com milho, batata-doce, leguminosas e hortaliças, estratégias relacionadas à preservação da produção alimentar.
A abordagem parte da compreensão de que a discussão sobre energia renovável não pode ser dissociada das estruturas sociais, econômicas e ambientais em que essa produção está inserida. A obra sustenta que, apesar da criação de novas dinâmicas econômicas, a cadeia do biodiesel pode reproduzir mecanismos antigos de expropriação direta e indireta da renda camponesa, sem necessariamente produzir respostas efetivas às injustiças socioambientais.
A investigação articula contribuições de diferentes tradições teóricas e autores, entre eles Milton Santos, Denise Elias, Júlia Adão Bernardes, Antonio Thomaz Júnior, Carlos Walter Porto-Gonçalves e Bernardo Mançano Fernandes. Essa base permite examinar, diferentes perspectivas geográficas, a articulação entre as dimensões política, econômica e também investiga os mecanismos pelos quais a riqueza produzida pelos camponeses é transferida e drenada pela indústria de combustíveis, questão que estrutura a interpretação desenvolvida pelo autor.
O livro é estruturado em quatro capítulos, além de prefácio, apresentação, considerações finais e referências. O próprio autor explica que o primeiro capítulo estabelece a fundamentação conceitual sobre capital, renda da terra e campesinato; o segundo examina a territorialização do PNPB e a acumulação de capital; o terceiro reconstrói historicamente a produção do espaço no Território de Identidade de Irecê; e o quarto concentra os resultados do estudo de caso sobre a subordinação da renda camponesa.
Ao longo dos capítulos, questões centrais do país, como transição energética, desigualdade socioambiental, agricultura camponesa e distribuição da riqueza produzida no campo são discutidos com apresentação de dados, citações e recursos explicativos como gráficos, quadros e tabelas. Está presente uma análise crítica das relações econômicas, políticas e territoriais estabelecidas em torno da produção de biodiesel no Brasil, tomando como estudo de caso o Território de Identidade de Irecê, na Bahia.
O texto desloca a discussão para as relações sociais de produção, questionando quem controla a cadeia produtiva, quem se apropria da riqueza gerada e em que condições os camponeses são incorporados ao mercado de matérias-primas energéticas. A problemática central é formulada a partir da implantação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) e de sua promessa de integrar agricultores camponeses à produção de energia renovável.
O autor investiga se essa integração significou efetivamente maior autonomia econômica para esses trabalhadores ou se criou novas modalidades de subordinação e expropriação da renda da terra camponesa. A investigação concentra-se especialmente na produção de mamona e nas relações entre camponeses, cooperativas, comerciantes atravessadores, Petrobras, empresas industriais, instituições financeiras e políticas públicas.
Entre os conceitos relevantes está a ideia de “algoritmo da despossessão”, presente no subtítulo do livro, como uma engrenagem articulada de relações (políticas, institucionais e empresariais) que permitem a drenagem sistemática da riqueza produzida no campo. A principal ameaça identificada é a perda de autonomia, de apropriação da renda do próprio trabalho e, potencialmente, da soberania alimentar camponesa.
Para o autor, a assimetria de poder econômico, logístico e político entre os agentes no campo pesquisado, impede que essa relação se realize em condições equivalentes: empresas e intermediários possuem muito maior capacidade de organização e interferência no mercado e nas políticas públicas do que as famílias camponesas.
O livro retira a discussão dos biocombustíveis de uma perspectiva exclusivamente tecnológica e ambiental e demonstra que a transição energética é também uma questão social, territorial, econômica e política. Uma fonte denominada renovável não produz, automaticamente, relações sociais sustentáveis. Para avaliar seus efeitos, torna-se necessário observar as relações de propriedade, trabalho, produção, circulação e distribuição da riqueza. A partir da experiência dos camponeses de Irecê, José Antonio Lobo dos Santos questiona a ideia de que inovação energética, por si só, corresponda a desenvolvimento social.
Por isso, a obra é relevante para pesquisadores e estudantes de Geografia, Engenharias, Energia, Ciências Ambientais, Economia, Desenvolvimento Regional, Sociologia Rural, Políticas Públicas, estudos agrários e outras áres afins que pensam na questão de interesse social: uma transição energética pode ser considerada sustentável quando reproduz desigualdades econômicas e mecanismos históricos de apropriação do trabalho? É, precisamente, essa tensão que atravessa e confere unidade à argumentação do livro.
Ficha técnica
Título: Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão
Autor: José Antonio Lobo dos Santos
Editora: Editora da Universidade Federal da Bahia — Edufba
Instituição: Universidade Federal da Bahia — UFBA
Cidade: Salvador, Bahia
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 198 páginas
ISBN: 978-65-5630-738-1
Classificação CDD: 665.53
Áreas temáticas registradas na ficha catalográfica: Biodiesel; combustível; energia — fontes alternativas; recursos energéticos; agricultura familiar.
Prefácio: Júlio César Suzuki (USP)
Como adquirir
A edição impressa de “Biodiesel e renda camponesa: o algoritmo da despossessão” pode ser adquirida pela Amazon e nos pontos físicos de venda da Edufba, em Salvador: as lojas da Faculdade de Educação da UFBA, no Canela, e do hall da Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa, no campus de Ondina. Os pedidos também podem ser feitos pelos canais da Edufba - e-mail: coedufba@ufba.br e WhatsApp: 71 9 9365-3166.