
Como um marco para a democracia e autonomia das universidades públicas brasileiras, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou, na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, no Salão Nobre do Palácio da Reitoria, a Cerimônia de Transmissão do Cargo de Reitor, celebrando o início da gestão do terceiro mandato do reitor João Carlos Salles Pires da Silva que, ao lado da vice-reitora Jamile Borges da Silva, assume a gestão da UFBA para o quadriênio 2026-2030. O evento foi transmitido pelo canal da TV UFBA, no youtube.
A solenidade reuniu representantes da comunidade acadêmica, autoridades políticas, dirigentes de instituições de ensino superior e representantes da ciência e da cultura e ganhou significado histórico por formalizar a primeira gestão de uma universidade federal eleita por votação de sua comunidade, após a entrada em vigor da Lei nº 15.367, de 30 de março de 2026, que instituiu a eleição direta por chapas para reitor e vice-reitor e extinguiu o antigo mecanismo da lista tríplice.
A celebração começou pela música. Na chegada dos convidados, a Sociedade Lítero Musical Filarmônica Minerva Cachoeirana, de Cachoeira, cidade natal de João Carlos Salles, recepcionou o público. No interior do Palácio da Reitoria, a programação reuniu ainda o Madrigal da UFBA e a Orquestra Sinfônica da UFBA (OSUFBA), sob a regência do maestro José Maurício Brandão, além da presença da Igbadu – Orquestra de Berimbaus de Mulheres. As intervenções musicais, os aplausos e as manifestações da plateia imprimiram à formalidade do rito acadêmico um caráter simultaneamente festivo, político e cultural.
Na mesa e entre as autoridades convidadas estiveram o reitor da UFBA no período de 2022 a 2026, Paulo César Miguez de Oliveira; o atual reitor da UFBA, João Carlos Salles Pires da Silva; a vice-reitora Jamile Borges da Silva; a ministra da Cultura, Margareth Menezes; o presidente da Academia de Ciências da Bahia (ACB), Manoel Barral Netto; Marcius de Almeida Gomes, representante da Secretaria da Educação do Estado da Bahia; e o reitor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), José Geraldo Ticianeli, que participou representando a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Também acompanharam a cerimônia parlamentares, dirigentes universitários, docentes, estudantes, servidores técnico-administrativos e convidados.
“Podemos pensar o mundo sem a UFBA?”
Filósofo de formação e professor titular da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, João Carlos Salles iniciou sua reflexão sobre o sentido da Universidade partindo da interrogação: “Podemos pensar o mundo sem a UFBA?” A pergunta não se limitava à existência física da instituição. Funcionava como provocação sobre tudo aquilo que a Universidade representa e produz - conhecimento científico, formação profissional, cultura, artes, pensamento crítico, políticas públicas e oportunidades de transformação social -, e sobre como seria a Bahia, e mesmo o país, sem a contribuição acumulada da UFBA.
A interrogação abriu caminho para uma análise das crises enfrentadas pela UFBA. No discurso, Salles indicou que os desafios não poderiam ser compreendidos apenas em termos administrativos ou orçamentários. A Universidade convive com dificuldades materiais, restrições de recursos e demandas acumuladas, mas também enfrenta desafios relacionados à própria ideia de comunidade, à convivência institucional e à capacidade de reconstrução de vínculos e salientou a percepção de assédios, sofrimento e preconceitos em meio aos diferentes segmentos da comunidade universitária (docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos) e como lidar com as diferenças e conflitos a fim de todos reconhecerem-se integrantes de uma mesma instituição: universidade pública, plural e democrática.
Diante de algumas crises apresentadas, Salles definiu sua missão para o reitorado: "nossa tarefa é política", mas também "nossa tarefa é poética”. Política, no sentido de recuperar a capacidade coletiva de decidir, participar e construir a Universidade. Poética, na perspectiva de produzir e recompor novos sentidos, o que implica na assertiva de que “nossa elaboração política precisará ter outra matriz. Outra aposta poética...”, disse ele.
O reitor vislumbrou a necessidade de reconstrução do “tecido comum” e de trabalhar “para a recomposição da aura” da Universidade – expressão que remete ao valor simbólico que a UFBA construiu ao longo do tempo com uma história associada à produção científica, à formação intelectual, à cultura, à arte, às políticas de inclusão e à participação em momentos decisivos da sociedade baiana e brasileira.
Recompor essa “aura”, conforme o pronunciamento, não significa simplesmente recuperar prestígio. Significa reconstruir a percepção coletiva sobre o valor da Universidade - inclusive dentro dela própria - e sua capacidade de compreender o lugar que ocupa na sociedade. Assim, Salles aponta para “um trabalho poético se inicia para a tomada de consciência”, de modo que a tarefa política organiza decisões e ações concretas, a dimensão poética atua sobre a capacidade de imaginar, perceber e reconstruir sentidos comuns.
“Nosso destino de Universidade exige uma poesia ousada”, assegurou lembrando o compromisso para os quatro anos seguintes com "capacidade de criação, ousadia intelectual, reconstrução de laços e disposição para imaginar coletivamente outros caminhos". Desse modo, a pergunta lançada anteriormente, “Podemos pensar o mundo sem a UFBA?”, chegou à uma conclusão: uma instituição com oito décadas de participação na produção científica, cultural, artística e intelectual da Bahia não pode simplesmente administrar sua sobrevivência. Precisa reconhecer o lugar que ocupa e renovar a consciência sobre sua responsabilidade.
Despedida e transmissão da borla reitoral
Em uma fala marcada por agradecimentos, o então reitor Paulo César Miguez de Oliveira recapitulou as "dores e delícias" de seu reitorado entre os anos de 2022-2026. Miguez expressou sua “gratidão de servir à UFBA” e recuperou aspectos dos quatro anos em que esteve à frente da instituição. Ele também destacou "a esperança" e o "orgulho de ter conduzido o processo eleitoral sob a nova legislação, justamente no momento em que chegava ao fim a lista tríplice".
Ao encerrar seu mandato, Miguez dirigiu o momento simbólico da passagem da borla reitoral, que é a insígnia acadêmica que representa a autoridade daquele que exerce o cargo máximo da Universidade, e transmitiu o cargo, oficialmente, a João Carlos Salles, que permanecerá até 2030. Empossado, Salles exercerá o terceiro mandato, pois dirigiu a Universidade entre 2014 e 2022 e também foi presidente da Andifes entre 2019 e 2020.
“Uma posse tranquila e pacífica”
Em nome da Academia de Ciências da Bahia (ACB), o médico e pesquisador Manoel Barral Netto, presidente da instituição, chamou atenção para a realização de uma “posse tranquila e pacífica”, expressão que ganhou significado especial diante das disputas vividas pelas universidades brasileiras nos últimos anos. Barral Netto é pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia, professor titular da UFBA e foi reconduzido à presidência da Academia de Ciências da Bahia em 2025.
Ao falar durante a cerimônia, a vice-reitora, Jamile Borges da Silva, relembrou sua trajetória e situou sua chegada à nova administração como parte da construção histórica da Universidade. “Chegamos não para inaugurar um tempo, mas para conduzir à definição da Universidade como lugar de encontro, divergência, criação e elaboração compartilhada. “Espaço de construção coletiva, a UFBA é”, afirmou Jamile, conferindo à participação da comunidade um lugar central na concepção de gestão apresentada pela nova Reitoria.
Representando a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, Marcius de Almeida Gomes defendeu a manutenção de um diálogo permanente entre Universidade, poder público e sociedade. Em sua intervenção, ele ressaltou a missão de estabelecer um “diálogo permanente para pensar um projeto de sociedade para transformação social”, destacando a UFBA e sua participação na produção de conhecimento, na reflexão sobre políticas públicas e na formulação de respostas para problemas sociais.
Em nome da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o reitor da Universidade Federal de Roraima, José Geraldo Ticianeli, destacou o caráter histórico da posse. Ticianeli presidiu a Andifes durante a gestão 2025-2026 e esteve à frente da entidade no período em que avançou a mudança legislativa que encerrou o sistema da lista tríplice, por isso, ele associou a posse de João Carlos Salles como o primeiro reitor a assumir uma universidade federal no novo cenário jurídico, a uma conquista nacional da autonomia universitária.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, representando o Governo Federal, recuperou marcos da trajetória da Universidade e sua contribuição para a Bahia e para o país. Ela enfatizou o papel histórico desempenhado pela UFBA na ciência, na educação, nas artes e na cultura e na formação de gerações e na transformação da sociedade. Margareth Menezes afirmou sentir-se honrada por "ver a UFBA novamente ocupando uma posição de vanguarda" e destacou a Universidade como referência para o país.
Exposição:
Antes do início da cerimônia, o público presente no foyer da Reitoria pôde apreciar a exposição Ferramentas Ancestrais: Saberes e Tecnologias em Diálogo, do Museu Afro-Brasileiro da UFBA.

Fim da lista tríplice e eleições diretas
A Lei nº 15.367/2026, sancionada em 30 de março, determina que reitores e vice-reitores sejam escolhidos por eleição direta em chapa pela comunidade acadêmica e posteriormente nomeados pelo presidente da República. O artigo 105 estabelece eleição direta, por chapas de reitor e vice-reitor, pela comunidade acadêmica e determina o encaminhamento ao presidente da República dos integrantes da chapa escolhida. A norma substituiu o sistema no qual uma lista com três nomes era submetida à Presidência da República.
A UFBA tornou-se, assim, a primeira universidade federal a realizar sua escolha de Reitoria sob esse novo modelo. A eleição ocorreu nos dias 20 e 21 de maio de 2026, com quatro chapas concorrentes. João Carlos Salles e Jamile Borges, da chapa “Somos UFBA”, foram escolhidos pela comunidade, e o resultado foi proclamado em 22 de maio. Salles e Jamile foram eleitos pela comunidade universitária em maio. Naquele processo, a chapa “Somos UFBA” alcançou escore ponderado de 4.423,03, a partir dos votos de 1.187 docentes, 1.102 servidores técnico-administrativos e 6.642 estudantes.